Luto lúcido de mim mesma
Um relato intenso de autoconhecimento e reconstrução, de quem reconhece seus limites, honra sua força e transforma a consciência tardia em lucidez e justiça consigo mesma.
ESPIRITUALIDADE LÚCIDA


Não sinto culpa.
Sinto a consciência tardia de quem carregou demais.
A névoa caiu e eu vi: o peso que abracei,
o chão que me tornei,
o corpo que esqueceu de si.
Despeço-me de quem fui.
Da versão que aguentava tudo,
do papel que deu identidade por anos,
da ilusão de que amor era absorver impacto.
Troco: “O que fiz de mim?” por “O que aguentei por tempo demais.”
A acusação se desfaz.
O contexto retorna.
A dignidade permanece.
Não quero me punir.
Não quero voltar atrás.
Não quero consertar ninguém.
Peço apenas reposicionamento,
para não me destruir.
Adaptei-me. Aguentei ambientes que exigiam demais,
porque era forte, disponível, sem custo próprio.
Agora coloco.
Quem só se sustentava me usando… cai.
Não é dureza, é justiça comigo mesma.
Não perdi nada essencial.
Estou me reconstruindo.
Estou me devolvendo.
Estou me reencontrando em cada pedaço que volto a ser.
Meu chão agora é mais firme.
Meus limites são claros.
Não sou abrigo para quem não respeita.
Não carrego mais o que não me pertence.
E no silêncio que sobra, na lucidez que acalma, vejo:
sobrevivi!
Sobrevivi, inteira.
E sobreviver não é dor.
É vitória.
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