A casa Onde Não se Cabe
Nem toda casa acolhe. Algumas ensinam a sair.
SUBVERSÕES ELEGANTES
Há casas que não expulsam. Elas apertam.
Apertam devagar, como quem não quer ser vista. Um comentário aqui. Um olhar ali. Uma crítica travestida de cuidado. Um silêncio que pesa mais que grito.
Nessas casas, o amor tem regras invisíveis. Você pode existir — desde que não mude. Pode crescer — desde que não ultrapasse. Pode ser — desde que não seja demais.
Aprendi cedo a andar em pontas de pés. A não incomodar. A não contrariar. A não ocupar o espaço inteiro do meu corpo.
Meu cabelo nunca estava certo. Minha roupa, sempre excessiva ou insuficiente. Meu jeito, inadequado. Minha autonomia, afronta.
Quando decidi ser quem eu era, não houve briga. Houve algo pior: rejeição fria. Aquela que não se explica. Aquela que se faz de santa enquanto empurra.
Não me odiaram por crueldade. Me odiaram porque deixei de precisar. Porque parei de pedir permissão interna. Porque não validei mais a narrativa da calma perfeita.
Há mães que amam filhos dependentes. Há famílias que só funcionam se alguém adoecer. Quando um se levanta inteiro, o sistema range.
E eu levantei.
Não gritei. Não confrontei. Não tentei iluminar ninguém.
Apenas parei de caber.
Hoje entendo: não era minha função curar aquela casa. Nem salvar aquele ciclo. Nem pagar com meu corpo o equilíbrio deles.
Algumas injustiças não pedem resposta. Pedem retirada de presença.
E retirar a presença não é vingança. É sobrevivência lúcida.
Não saí com raiva. Saí com verdade.
Porque há lugares onde ficar é se perder. E partir é, finalmente, voltar para si.
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